"- Ele está morto Maria, não vai voltar.
- Que está morto sei eu menina! Valha-me Deus! A menina fala assim do seu pai ainda ele não soltou o último suspiro! – A faca que segurava na mão calejada imobilizou-se no ar quando a mulher se virou para perscrutar a face enxuta da jovem. Viu-a serena, sentada no banco corrido de vigas, de frente para a lareira, com o brilho avermelhado da madeira incandescente a tingir-lhe as faces brancas.
Lorena não lhe respondeu. A faca voltou à vida, retomando a ação de forma metódica e automática. Os troncos enegrecidos estalavam sobre as lajes e o odor pungente do fumo misturava-se como o da comida.
- Ele era sempre tão frio, será que sentia alguma coisa? – A voz quebrou o silêncio e a faca imobilizou-se de novo.
- Ele estava vivo menina, claro que sentia – respondeu-lhe a mulher. E voltou a ouvir-se a faca cortar.
- Talvez. Mas por mim não sentia. Pelo Daniel também não.
- Ele gostava muito de si e do seu irmão, sabe bem disso.
- Se achas que ele sentia então não sei o que é sentir. Então eu estou morta por dentro – atirou Lorena com desdém. – Talvez o Daniel também esteja.
- Não diga essas coisas. – De Maria só lhe via o xaile, o movimento dos braços largos e o som da faca. Repetitivo. Incisivo. – A menina acha que está morta por dentro é?
-Não sei. Achamo-nos mortos por dentro, porque sentimos um vazio escuro – disse Lorena alisando, com os dedos magros, brancos e pequenos, as pregas da saia azul escura. – Ou talvez seja porque achamos que não sentimos nada. Se te cortares, se vires o sangue escorrer, vermelho e espesso, da ferida aberta, vais sentir dor. Pergunto-me se a mim me doeria como te dói a ti. A dor é uma sensação pulsante dentro de nós. Por isso não somos mortos, porque sentimos dor. Eu sinto dor, por isso não sei o que tenho dentro. Não sei se sou oca ou não.
- Mas e a dor da alma, menina?
- Essa sentes, se tiveres alma. – Lorena fitava languidamente o fogo. As labaredas cálidas inundavam-lhe as órbitas como se o fogo estivesse dentro dela. – Mas a dor da alma não passa como a dor que sentes quando te cortas. A dor da alma é permanente, para alguns.
Sem saber o que responder, Maria da Agonia continuou a rodar a batata branca com as mãos. A faca cortava pele e miolo, que caiam sobre a laje de mármore escura, numa espiral interminável. As batatas iriam para o tabuleiro, com codornizes pequenas, tomate e alecrim. Ela sabia que Daniel gostava do sabor do alecrim."